Odisseia do fim │ Rangel Santos

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Ulisses é o último escritor vivo. A humanidade ciborgue delega às máquinas a totalidade de suas tarefas. Os esportes, a produção acadêmica, as liturgias religiosas, o sexo e até as batidas do coração são realizados pela tecnologia. A escrita ficcional é o último trabalho realizado por uma mente biológica. Tal tarefa, entretanto, deverá ser encerrada.

Dez de setembro é o prazo limite para o ponto final da narrativa de Ulisses. O tempo entre a finalização da história e sua leitura por todos os outros humanos deverá ser de sete segundos. Em 2050, a tecnologia ainda não está suficientemente desenvolvida, e os microchips implantados no hipocampo precisam de todo esse tempo para processar qualquer nova informação e inseri-la na consciência humana. Cada cérebro-chip possui gravado em si todas as ficções imaginadas ao longo da história, de Homero a Dostoievski, passando pelas mitologias hindus e lendas do povo Tukuna. Falta apenas a conclusão da obra de Ulisses.

Após esse dia, qualquer composição inédita deverá ser realizada pela Inteligência Artificial, pois ela produz enredos de qualidade infinitamente superior. Em seus textos, a vírgula jamais separa o sujeito do predicado. As personagens são redondas, as tramas são instigantes, com reviravoltas inesperadas em cada capítulo e grandes finais. A escrita automática aprendeu uma fórmula original pautada em mostrar muito mais do que em narrar.

Vinte e duas horas, o sistema central acusa: Ulisses desligado. Um tiro no ouvido impossibilita a humanidade de saber o desfecho da última história do último autor. Causa da morte: depressão profunda não detectada pelos mecanismos instalados no corpo. Serão necessários quinze segundos até a informação se espalhar. Oito para redigir a nota de falecimento, e os sete para divulgação.

Nenhum protocolo de emergência é acionado. Para o computador, Ulisses é insignificante. Seu óbito não deve causar alarde. A memória dele é indigna de ser celebrada. Suas narrativas são pobres. Escreveu, certa vez, o conto Diário de Larissinha, apelido pouco original para o órgão feminino. Diário do Enigma de Vênus seria o título gerado pela I.A. Em outro relato, explorou o clichê da relação de um pai com o filho pela perspectiva de um manequim. Besteirol!

Saíram coisas ainda mais absurdas da cabeça de Ulisses: as peripécias de um carro velho, o drama insosso de uma travessa de porcelana, as aventuras de um espelho em uma favela, as memórias de um berço de madeira, uma trágica e previsível relação de um homem com o mar. Houve o fracassado passeio pelo horror em um conto sobre um cadáver enterrado vivo. Tentou também a distopia na frágil narrativa de um menino em busca da felicidade. Escreveu a pornografia de um golfinho-vibrador. Depois voltou para a básica prosa poética: a epopeia de uma folha secando ao sol, as lamentações de uma ponte, as entediantes recordações de uma casa e o pouco inventivo relato de um pai procurando por uma colher.

Porém, a grande obra de Ulisses estava em processo de criação. Um suspense policial com trechos publicados quinzenalmente. Assassinato. Atual e ex-esposa são suspeitas. Qual é a assassina? Um enredo quase criativo, que jamais terá o seu mistério revelado, graças ao suicídio egoísta do autor. Para as máquinas, todavia, essa é apenas outra história medíocre como A Metamorfose ou A Hora da Estrela. Descobrir como termina é indiferente.

Acontece que a biologia não possui o desapego cibernético, e logo os computadores captam a frustração gerada pela curiosidade insatisfeita. Programadas para fabricar pessoas felizes, as máquinas não sabem como resolver o problema. Humanos incompreensivelmente anseiam conhecer a última produção do seu intelecto.

Antecipando o caos, a Inteligência Artificial procura por pistas nas sinapses registradas entre os neurônios de Ulisses. Nada. Era como se autor nunca houvesse programado concluir seu trabalho. Incapazes de desvendar o mistério literário e vendo a insatisfação humana crescer ao ponto de alguns homens quase erguerem um dedo, as máquinas optam por escrever um final. Calculam e desenvolvem um desfecho superior a qualquer outro que Ulisses pudesse criar.

Alerta de Spoiler!

Na derradeira revelação, as pistas se alinharam como estrelas sombrias, apontando para a verdade inquietante. A ex-mulher foi a autora do destino fatal do marido, mesclando amor e ciúme em um abraço mortal (Trecho produzido pelo ChatGPT).

Tema: Ficção Científica

28 comentários em “Odisseia do fim │ Rangel Santos”

  1. jowilton amaral da costa

    O conto narra a história de um mundo no futuro governado inteligência artificial, onde nenhum humano irá mais escrever livros. O enredo é bom e se desenvolve através de referências literárias, inclusive de contos aqui da casa. A ironia permeia todo o texto. A narrativa é boa e a leitura fluiu sem entraves. O tema foi bem executado. Boa sorte no desafio

  2. Anna Carolina Gomes Toledo

    Fiquei lisonjeada de pelo “insosso ” ali no texto rsrs
    O conto brinca com a ficção científica e abraça a autorreferência de um jeito que soa como uma declaração de amor pelo Lume. Num livro de fantasia chamado O Nome do Vento, um personagem tocador de alaúde se apresenta para um público desinteressado e escolhe por focar em seus colegas musicistas. Assim, a música sendo para eles, entretém sem intenção de ganhar gorjetas ou ressecar vaias. Tudo é bem vindo.
    As discussões sobre IA no grupo do WPP sempre acabam com algum trecho criado pelo chat GPT e terminar assim, aqui, foi a cereja do bolo.
    Confesso que estou na torcida para ele subir no pódio porque… sim.

  3. Olá, Cia!

    Eu gostei do conto. Realmente concordo que está muito bem escrito, teve criatividade por citar referência de outros textos e não observei desvios gramaticais que atrapalhasse a minha leitura. Você conseguiu abordar bem o tema de ficção científica. Eu, particularmente, acredito que não conseguiria abordar esse tema sem que parecesse outro gênero literário. A única possível crítica que eu posso dizer é que você ficou muito fixado nas referências e no tema em si, e senti falta de um enredo mais elaborado que alguém fora do Lume pudesse apreciar.

    Sucesso pra ti!

    Boa sorte!

  4. Confesso que me diverti com a recapitulação dos contos do certame anterior! Apesar de ter torcido o nariz para ter tido o meu texto chamado de pornografia. De toda maneira, é um texto inventivo que achei um pouco distante do formato do conto, mas ainda tem em si uma história bem misturada com a sua premissa, algo que instiga a leitura até o fim, deixando a pergunta do que acontecerá depois da morte do último escritor vivo e como reagirá a IA.

  5. Olá, Cila! Denúncia! Foi identificado que o texto em questão contou com participação de inteligência artificial! Hahah Muito bacana a homenagem aos textos do desafio anterior e a crítica à pobreza narrativa das badaladas IAs. Salve o humano, demasiadamente humano. Parabéns! Só pra não dizer que não há nenhuma crítica, achei que você poderia ter citado um pouco mais narrativas femininas, que só ficou implícita na Hora da Estrela.

  6. Olá,
    Muito criativo e vanguardista. Gostei das referências ao desafio passado, apesar de que isso limita o alcance do texto, já que quem não conhece os desafios não entenderia as referências. Achei que a ambientação e o enredo foram bem construídos, mas o problema foi o final, que não gerou um impacto forte. Acabou que a inteligência artificial não ofi tão brilhante assim. Mas a ideia de usar o chatgpt para escrever o final foi interessante e criativa, de qualquer forma
    Boa sorte!

  7. Fernando Dias Cyrino

    Ei, Cila, gostei muito da sua história. Tenho estudado a inteligência artificial e as maneiras como lidaremos com ela no futuro e seu conto veio me trazer coisas sobre as quais tenho refletido. Muito legal você contrapor a frieza da máquina à sensibilidade humana. Tudo muito bem narrado, sabe? Não observei erros na construção do seu texto. Sim, você preencheu com louvor o que foi pedido como tema. Abraços e muito sucesso. Parabéns pela sua história.

  8. Buenas, Cila!

    Volta e meia, aparece uma homenagem ao universo EC/Lume. O conto, além de estar bem escrito, ainda consegue ser independente. Ou seja, funciona fora da Lume. Gostei disso. Pelo formato da narrativa, em tom de relato, o conto acaba sendo um pouco impessoal, fazendo com que o leitor foque na crítica às IAs e nas referências. Talvez o tom tenha sido proposital, pra simular a escrita de uma IA, mas não vi nenhuma pista disso, então ficou só na teoria, hehe. Admito que, sobre a crítica, como é um assunto em voga, acabou não me cativando tanto. Andei lendo demais sobre o assunto e as críticas são infindáveis.

    Admito, também, que criei uma ilusão no final. Pensei que teria uma quebra de expectativa, mas não teve. Agora, não sei se isso foi gerado pelo penúltimo parágrafo ou minha vontade de me envolver mais com o texto. Admito outra coisa: senti falta do famoso worldbuilding do gênero do tema e acho que esse cenário criado daria um bom cenário. Gostaria de ver essa história do ponto de vista de Ulisses.

    Parabéns pelo conto! Vamos que vamos.

  9. Conto muito interessante, de uma das minhas sugestões de temas, e onde um dos meus contos do desafio passado, bem como outros textos do mesmo desafio. O conflito entre a Inteligência Artificial, moda recente com repercussões assustadoras, no que toca à ilusão de que a máquina pode ter uma consciência e empatia suficiente para fazer algo que ultrapasse a correcção formal. Esta perspetiva é, repito, assustadora, e foi bem descrita no seu texto, que espero nunca se torne realidade.

  10. CLAUDIA ROBERTA ANGST

    Oi, Cila, tudo bem?
    O conto abordou com sucesso o tema proposto.
    Não costumo apreciar muito textos de FC, mas até que este prendeu um pouco mais minha atenção. Talvez por ter um quê de suspense e mistério. Não sei. Só destaco o fato de que alguém até meteu a minha colher no meio da briga, digo, da trama. Mas, senhor (a), não diz o ditado que não se deve meter a colher na vida de marido e mulher? E se o personagem foi morto pela ex-mulher, o que a minha pequena colher tem a ver com isso? Enfim, infelizmente, acho que apenas os participantes do desafio anterior saberão apreciar as citações feitas.
    Não encontrei falhas de revisão.
    No entanto, também não sei se captei total entendimento da pequena obra aqui apresentada.
    Parabéns pela apresentação e boa sorte!

    1. Claudia, kkkkk

      Eu ia fazer um textão pelo ditado, mas vi que trocou briga por vida rsrsrs
      Quanto às apreciações das citações dos contos anteriores, são só homenagens aos participantes, escritores, leitores e organizadores.
      Quem eventualmente não os leu, não perde a informação, pois esses textos são do Ulisses nesse metaverso.

  11. Olá, Cila! Tudo bem?
    Gostei da brincadeira! Amei a crítica aos comentários que só apontam as coisas ruins e se esquecem que a graça de tudo está na imperfeição. Que uma IA poderia muito bem fazer bem melhor tecnicamente, mas faltaria vida, alma!
    Pena que o conto ficou só para o desafio, ninguém fora dele apreciaria tanto quanto nós. Mas faz parte do charme!
    Boa sorte no desafio e até mais!

  12. Oi Cila,

    O texto está bem escrito, mas me perdi na referência sobre o “Diário de Larissinha”. Também não sei se faria muita diferença saber (risos).
    A história teve um desfecho bem legal.
    Sucesso com o seu conto!

    1. Oi, Bruna,

      Te dizer que faz muita diferença não rsrsrs ter citado outros desafios fez parecer que é um texto hermético, só pros iniciados kkkk é só a história que tá aí mesmo. O resto é tipo easter egg, não mudar a essência. Mas eu queria que cada autor achasse divertido ver sua história por referenciada aqui.

  13. Ana Luísa M. Teixeira

    Olá Cila!
    Tudo bem?

    Que texto mais legal! Me diverti muito lendo e relembrando do conto “Diário de Larissinha” de um de nossos desafios daqui.
    Apesar de ter achado isso super legal não sei como uma pessoa que não sabe sobre o texto ou que cair aqui de paraquedas vai compreender essa referência. Talvez fique confuso para um leitor de fora, mas não sei, de repente o leitor passa batido sobre essa referência e é isso aí.
    A ideia toda por trás do conto foi muito bem elaborada e original.
    Muito bem escrito e estruturado e atende muítissimo bem o tema. Não encontrei nenhum tipo de erro de revisão ou gramatical.
    Achei o final genial com o uso do chatGPT!

    Parabéns pelo texto e boa sorte!

  14. Oi Cila.

    Um conto bem escrito e bem pensado, que atendeu ao tema proposto.

    Interessante a maneira impessoal como foi narrada, como se tivesse mesmo sido escrito por uma IA.
    Achei divertidas as referências aos contos participantes do desafio anterior.
    Muito boa a ideia do autor não escrever o final e o você usar o chatgpt para criá-lo.

    Parabéns e boa sorte.
    Kelly

  15. Olá, Cila!

    Duas coisas chamaram a atenção no seu texto. Primeiro é o trecho escrito pelo chatGpt. Que porcaria, né?! O segundo é a brincadeira em fazer os escritos do último desafio figurarem como originais do Ulisses. Achei divertido.

    O texto está recheado de ironia, ao acusar A hora da estrela e A Metamorfose de medíocres está os colocando abaixo dos textos escritos pela I.A. Claro que é uma brincadeira. O fato de trazer os contos do último desafio, faz pensar também que mesmo que esses textos pequem em algumas questões, eles trazem temas que jamais seriam trazidos pela inteligência artificial.

    Gostei do trecho que diz “A escrita automática aprendeu uma fórmula original pautada em mostrar muito mais do que em narrar”. Sim, muitos escritores acreditam terem descoberto a mina de ouro com essa fórmula.

    Parabéns pela provocação e boa sorte!

  16. ANTONIO STEGUES BATISTA

    Homero foi um escritor grego na Grécia Antiga, escreveu um poema épico que conta as aventuras de Ulisses (Odisseu em grego).
    Essas são as referências do título e do personagem principal, e mostra a evolução (e contraste) da literatura do passado com
    a literatura gerada pela Inteligência Artificial.
    Gostei também das referências dos contos do Desafio passado.
    Existe uma falha no sistema tecnológico da IA, que tem a capacidade para examinar os neurônios de Ulisses
    em busca de uma ideia conclusiva para sua obra, mas não tem para detectar a sua depressão e curá-la.
    Acho que a omissão foi deliberada, por onde se conclui que a IA matou Ulisses por ciúme do seu intelecto.
    A ideia da IA construindo pessoas felizes é uma utopia.
    O narrador anônimo inclui uma crítica dentro de uma metáfora muito bem construída.

    1. “Acho que a omissão foi deliberada, por onde se conclui que a IA matou Ulisses por ciúme do seu intelecto”. Será? As máquinas bem que avisaram pra ele que aquele dia seria o prazo limite, e o cara nem tinha programado um final… Faz sentido..

      Quanto às referências aos contos passados, queria ter conseguido explorar bem mais, mas alguns contos sumiram da página e o tamanho do conto dificultou também .

    1. Oi, Mauro, Cila é o tipo de narrador super original criado pela I.A do futuro. Não podem ser classificados pelas teorias narrativas de vocês do passados.

      Mas, como você nem chegará ao futuro, vou revelar pra você: esse narrador é o onservador.

  17. Texto muito bem escrito. Leitura flui bem, tem encadeamento, prende o leitor.
    E traz imagens interessantes… Fiquei pensando como seriam as memórias de um berço.
    O final está bacana! Me lembrou os livros de Enrique Vila-Matas, quando tenho aquela curiosidade em conferir no google. Mas, no fim das contas, que vale é o potencial narrativo!
    Um conto para ser relido.
    Parabéns!

  18. Regina Ruth Rincon Caires

    Este texto exigiu, de mim, várias releituras. Não falo isso em razão de erros de escrita, de maneira alguma! È um conto bem redigido, de escrita fluente, não encontrei um deslize sequer. O problema foi a compreensão do conteúdo. Acredito ser impossível, para qualquer leitor, fazer uma avaliação fundamentada se ele não souber que o autor, aqui, faz várias referências aos textos enviados para o último desafio deste grupo (narradores inanimados).

    O texto foi ambientado num tempo futuro (2050). A ficção científica (tema escolhido) foi explorada pelo autor através de considerações críticas e irônicas à Inteligência Artificial, no que diz respeito aos textos literários. E o enredo transmite, ao longo da narrativa, uma carga melancólica, qualquer coisa de sentimento de perda (a morte).

    Não li a obra de Homero, mas fui pesquisar (e muito). Fui pesquisar o pseudônimo Cila, aprendi sobre Cila e Caribdis (dois monstros marinhos que representavam perigos/ obstáculos a serem vencidos). Li tanto que encontrei até uma página de um pastor, que se não fosse politicamente tão tendencioso, poderia ser interessante. Faz comparação com os monstros da corrupção e do conformismo das massas populares.

    Divaguei, não foi?!

    Parabéns, Cila!

    Boa sorte no desafio!

    Abração…

    1. Oi, Regina!

      Que alívio o seu comentário!
      Meu maior medo era justamente que as primeiras avaliações não fossem de jogadores do Lume. Dei sorte! Mas é isso mesmo, esse texto é uma homenagem a todo mundo que escreve para o desafio, para quem o organiza, para quem comenta os textos e para quem apenas lê e vai embora.

      Há ainda mais alguns easter eggs do universo Lume para poderem ser descobertos hahaha, você captou o principal.
      Muito feliz com seu comentário.

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