Lost in translation │ Pablo Kaschner

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Foi em Sevilla que se conheceram. Andavam andaluzes, e chegavam a luzir em si o brilho de quem caminha adiante, sem olhar para trás. Como quem lê uma crônica de Rubem Braga e não amarga em si a melancolia de sentir que ultimamente têm passado muitos anos. Ele procurava não se apegar ao passado, como se quisesse acreditar que tem caminhos no meio da pedra. Ao mesmo tempo, sabia: há coisas que são inevitáveis, inolvidables.

Olvido.

Oi?

Olvido quer dicer “esquecimiento” em espanhol – meditava, com seu sotaque mediterrânico.

— Não conhecia esse seu lado troglodita.

— Oi?

— Poliglota.

— Ah sim.

— Às vezes troco as palavras.

— Percebe-se.

— Mas nunca é tarde pra se corrigir, né?

— Nunca es tarde.

E sem esclarecer se nunca é tarde ou se nunca é que é tarde, continuou o caminho, que se faz ao andar, sabia bem, ouvira da boca de alguém, ou das letras de algum poeta. Fato é que seguia caminhando, ela e seu – ironia do destino – walkman. Ela era anacrônica: gostava de fita cassete. Talvez estivesse presa ao passado, como quem se rebobina em caneta Bic. Para voltar a recordar, apertou REC, e pareceu mentira: sentia uma nostalgia do que não tinha vivido.

— Sabe como se dice “depois de amanhã” em espanhol?

— Como?

— Pasado mañana. Não é curioso?

— Hum… sim. E você vê o futuro repetir o passado?

— Eu vejo que às vezes é preciso olvidar para criar algo nuevo. Pintar un cuadro de blanco, para começar a escribir otra história.

— Às vezes pode ser tarde.

— Seria bom se existisse um “fone de olvido”. A gente colocava e esquecia de algunas cosas.

— Se o problema fosse só esquecer…

— Não é?

— Você acha?

— Acho que nunca es tarde – dizia, tentando convencer-se de que era possível retomar as promessas de amor que no ar se perderam. Como se dissesse ya todo aquello pasó, todo quedó en el olvido.

Poderia ter sido em Verona, e serem de famílias rivais. Mas foi ali, em solo andaluz, que se avistaram cravadas duas cruzes nos arrabaldes de Sevilla, no bairro de Santa Cruz. Sevilla, con su lunita plateada, testemunha de um findo amor sob a noite calada. Dois amores que, mesmo sem pecado, quis o destino que vivessem separados. Como se incapazes fossem de se comunicar, talvez por trocarem as palavras às vezes. Como se perdidos em alguma tradução – ou tradição maldita. Dois amores que morreram sem se terem compreendido.

Dos amores que se han muerto en el monte del olvido.

Tema: Melancolia

17 comentários em “Lost in translation │ Pablo Kaschner”

  1. jowilton amaral da costa

    O conto tenta narrar a história de duas pessoas que se amam, mas nunca ficaram juntas de verdade. Acho que é isso. Não consegui acompanhar o raciocínio do autor, fiquei boiando em muitas partes. Também acho que o conto não é lá muito melancólico. Boa sorte no desafio.

  2. Anna Carolina Gomes Toledo

    Talvez por falta de experiência ou desconhecido das referências, mas realmente não entendi o texto ou o que ele queria passar. Precisei ler mais de uma vez para entender a melancolia e ainda assim, não consegui gostar do todo. Há trecho interessantes, como um Frankenstein de ideias legais a se escrever, mas que o conjunto não parece fazer os encaixes encaixarem, ficando aquela costura estranha aparecendo.

  3. Não senti nem um conto e nem o tema abordado em profundidade. É visível a ligação entre o tema do esquecimento e da melancolia, mas achei o diálogo mais um empecilho à conexão com a leitura do que construtivo para tanto, ficou um texto ensaístico.

  4. Olá,
    O conto é realmente melancólico. Não tem uma história muito complexa sendo narrada, mas fica óbvio que a premissa não era essa. Gostei muito da escrita e dos jogos de palavras, sugerem um autor com experiência e habilidade.
    Boa sorte!

  5. Fernando Dias Cyrino

    Olá, Carol, cá estou eu às voltas com o seu conto. Caramba, que viagem em Sevilha. Interessante ter usado os estrangeirismos, mas confesso que não curto muito. Afinal, nosso desafio é em português. Você atende aos requisitos do tema. Há muita melancolia no seu texto, Usa bem as palavras tanto em espanhol quanto na nossa língua e isto é um ponto ao seu favor. Abraços e sucesso no desafio.

  6. Buenas, Carol Okê!

    Um mar de melancolias. O tom, a narrativa, as frases, tudo encaixado para transmitir essa sensação para o leitor. E você tem cacife pra aplicar esta técnica. Tudo parece meio teatral, as frases soam ensaiadas e um tantinho superficiais, apesar da profundidade depositada nelas, mas quem já conviveu com uma pessoa melancólica sabe que eles gostam deste tipo de drama, hahaha. Eu gosto da tristeza e das histórias que retratam este nobre sentimento. Apesar disso, achei que a trama ficou numa zona comum. Não sei, mas, apesar da leitura gostosa, faltou algo que me ligasse aos personagens. Acho que o tom superficial acabou me afastando um pouco. Li como se lê um folheto bem produzido.

    Parabéns pelo texto. E vamos que vamos!

  7. ¡Hola, Carol Okê! ¿Qué tal? E isso é tudo o que sei em espanhol rs.

    Sobre o conto: eu gostei muito do que li, apesar da leitura ter uma certa travada por conta do uso dos estrangeirismos, ainda me proporcionou uma boa experiência como leitor. Curti bastante as referências a outros textos, confesso que uma parte descobri ao ler os comentários rs. Além disso, você conseguiu aproveitar bem o tema que foi dado e escreveu uma história muito bonita, sem deixar nenhuma ponta solta, algo que não fizesse sentido ou que não agregasse ao conto. Gracias!.

    Sucesso pra ti!

    Good luck!

  8. CLAUDIA ROBERTA ANGST

    Oi, Carol Oke, tudo okey?
    O conto abordou o tema proposto – há melancolia e muita poesia também. Além de citação de outras obras, referências interligadas e uma miscelânia de cacos que produziram um mosaico interessante.
    Não há como traduzir os sentimentos, nem a tal melaconlia, mas gostei da brincadeira que fez com as palavras, os signos e os significados.
    Alguns detalhes que precisam ser revistos já foram apontados pelos demais comentaristas. Concordo com a questão do itálico, ficaria mais claro para o leitor.
    Uma boa e indefinível leitura. Ou seria intraduzível?
    Parabéns pela participação e boa sorte!

  9. Olá. Este foi um dos textos que mais trabalho me deu a compreender. Talvez porque vi que lhe faltava alguma profundidade, tive de googlar. Descobri que o texto, subordinado ao tema melancolia, fala de uma música que talvez o autor do texto conheça pela versão de Milton Nascimento, que fez parte do álbum Clube da Esquina. Curiosamente, houve um texto sobre este mesmo álbum no saudoso Entrecontos. A música, um bolero que fala de dois amores destinados a ficarem separados, foi escrita por Carmelo Larrea, de Bilbao – terra por onde passei em Agosto e que me ficou no coração. Voltando ao texto propriamente dito, é pena que com tanto potencial o autor se tenha perdido num conjunto de fait divers irrelevantes, quando podia ter seguido mais à letra o sentido da música.

  10. Oi Carol Okê.

    Gostei do seu conto. Achei o tema difícil e você se saiu muito bem com um conto poético, um conto para ser sentido, mais do que entendido. O título é muito apropriado, me remeteu imediatamente ao maravilhoso filme homônimo e à mesma sensação etérea e de estar perdida que tive ao acompanhar Scarlett Johansson e Bill Murray pelas ruas de Tokio.

    Parabéns e boa sorte.
    Kelly

  11. Ana Luísa M. Teixeira

    Olá Carol!
    Tudo bem?

    O tema foi bem abordado e as imagens criadas no texto são poéticas e, melancólicas.
    Eu não encontrei grandes erros de português, mas, como li em algum dos comentários, também acredito que teria sido melhor que as palavras em outros idiomas fossem grafadas em itálico para ficar claro ao leitor que se trata de uma escrita em outra língua.
    A par do tema “Melancolia” me agradou muito a maneira como colocou os outros temas: o tempo e a passagem do mesmo, o esquecimento, o arrependimento, muito sensível cada um dos temas que você conseguiu abordar aqui dessa maneira.

    Parabéns pelo conto e boa sorte no desafio!

  12. Oi, Carol!

    Algumas imagens bem bem bem bonitas.

    A história está totalmente adequada ao tamanho e proposta do desafio. O tema bem abordado.

    A escrita é poética, primorosa e atenta a todos os detalhes. Tudo encaixado para deixar a prosa com a beleza da poesia.

    Um ponto que me pegou foi a quantidade de referências a outros textos. Esses dias, eu estava lendo uma crítica ao Caio Fernando Abreu. Eu o lia sempre, e todas as vezes algo me incomodava, nessa crítica descobri que era o estilo dele de sempre referenciar às suas leituras. Tudo isso, deixa a sua escolha arriscada. Para mim, nesse caso, as imagens são lindas, as frases potentes, mas elas pareceram deixar a história em segundo plano.

    Digo isso, mas no geral, é uma das melhores coisas circulando pelo desafio. Explorou muito bem os recursos que dispõe para deixar tudo melancólico, que já um tema meio poético.
    Parabéns!

  13. ANTONIO STEGUES BATISTA

    O conto faz referências a algumas obras literárias e também um jogo de palavras muito bem construído.
    Uma história de Amor e Melancolia, de alguém relembrando o passado.
    “Caminho no meio da pedra”, se refere ao poema de Drummond, Uma Pedra no Meio do Caminho.
    Nos anos 70/80, eu usava uma caneta Bic para rebobinar uma fita Cassete que eu colocava num Walkman,
    para ouvir música enquanto caminhava.
    Verona era a cidade italiana onde viviam as famílias rivais, Capuleto e Montéquio, da peça teatral de Shakespeare, Romeu e Julieta.
    Alguém poderá ficar perdido na tradução deste conto de Carol o quê? Uma excelente escritora e um conto excelente

  14. Um conto cujo título já chega em outra língua. Nesse sentido, exige do leitor.
    Nos diálogos iniciais nem sempre é fácil identificar quem fala.
    Tem uma brincadeira com as palavras (olvidar), alguma tentativa de rima (Andavam andaluzes), uma apropriação do consagrado (‘você vê o futuro repetir o passado’).
    Foi um conto pensado, sem dúvidas, mas, para mim, não teve fácil leitura, talvez pela pouca fluidez.
    De qualquer forma, valeu !

  15. Regina Ruth Rincon Caires

    Um texto escrito numa miscelânea de línguas. Mistura português com espanhol (castelhano). Ficaria mais inteligível com a grafia dos estrangeirismos em forma itálica, conforme a norma exige.
    “Quando forem necessárias, as palavras estrangeiras que não estejam incorporadas ao português na sua forma original e as que precisem ser traduzidas ou explicadas devem ser grafadas em itálico.”

    O tema escolhido pelo autor versa sobre “melancolia”. E o texto é voltado para uma história de amor marcada pelo desencontro. Há até uma referência a Romeu e Julieta, de Shakespeare, e sobre as famílias rivais (Montecchio e Capuleto).

    Enfim, acredito que seja um conto que exige uma revisão minuciosa, organizar as ideias para tornar a comunicação mais cristalina.

    Parabéns pelo trabalho, Carol Okê!

    Boa sorte no desafio!

    Abração…

  16. Oi, Karaokê! (Amei! 😁)
    Gostei do tema… E você conseguiu passar esse clima de melancolia muito bem!
    O texto é delicioso de ler! Concordo com a frase: ” não amarga em si a melancolia de sentir que ultimamente têm passado muitos anos.” Sim, ultimamente tem passado muitos anos e não adianta amargar mesmo… A vida acontece, mesmo se estivermos aproveitando o presente ou não. Então, vamos aproveitar!
    Gostei de tudo! Ótimo trabalho!
    Boa sorte no desafio e até mais!

  17. Olá, Carol! “ultimamente têm passado muitos anos” me parece que seria sem circunflexo, assim como vc escreveu no período a seguir (“tem caminhos no meio da pedra”) pq o verbo “ter” com sentido de “existir” é invariável. A frase anterior é uma locução, não tem sentido de existir (tem passado), mas acho q seria sem acento mesmo. “Como quem se rebobina em caneta Bic” é uma imagem legal. Talvez fosse interessante colocar os estrangeirismos (walkman) em itálico. Com relação ao tema, achei q o conto passou essa aura de melancolia.

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