A arte de dominar a meditação │ Regina Ruth Rincon Caires

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Com os vidros totalmente fechados, o som alto do rádio vibrava com o batuque do samba. E Clarice, tamborilando os dedos na direção do carro, cantava a plenos pulmões: “deixa a vida me levar – vida leva eu – sou feliz e agradeço – por tudo que Deus me deu”. Só percebeu que atravancava o trânsito quando, entrando na rotatória, uma buzina insistente a fez tremer. O motorista, ultrapassando perigosamente, sacudia o braço fora da janela certamente a dizer impropérios, mas ela nem quis observar o gentil cumprimento do dedo do meio.

Penúltimo dia de trabalho antes das tão esperadas férias. Seria o primeiro ano em que as gozaria no período de aula dos filhos. Não viajaria. Queria descanso. Há dias pensava numa atividade prazerosa para aqueles dias. Pensou em academia, precisava de movimento, alongamento. Afastou logo a ideia só de pensar no suor, nas dores que viriam dos esforços. Hidroginástica poderia ser interessante. Não, nada de roupa molhada de lá pra cá, saltitar, seguir comandos. Caminhar seria outra possibilidade, mas a joanete a mataria. Depois de muita avaliação, escolheu IOGA. Atividade amena, a calma traria equilíbrio, diminuiria a ansiedade.

Decidida, naquela tarde passou na academia e inscreveu-se. Sendo uma prática suave, poderia frequentar despreocupadamente dia sim, dia não.  Era exigida vestimenta própria: camiseta branca com logo da empresa, calça legging azul turquesa, cores que traziam pureza, conhecimento, ideal e sonho. Num cálculo rápido, comprou três camisetas e duas calças. Claro que, no parafuso das ideias, o som trinado de níqueis escoando pelo ralo era inevitável.  Somando ainda matrícula e mensalidade…

Segunda-feira, primeiro dia da façanha. Filhos na escola, marido no trabalho, a pontualidade da aliada-ajudante de tantos anos, tudo alinhado. Devidamente paramentada segue rumo à academia. Sem carro, percurso pequeno, chegou minutos antes. Orientada, retirou o calçado, guardou em prateleira reservada juntamente com bolsa e óculos de grau. E, liberada pela simpática secretária, podia instalar-se na sala, escolhendo um dos vários colchonetes. Sem pestanejar, procurou o mais distante, aquele bem próximo da janela que dava para o arvoredo. Ajeitou-se, cruzou as pernas, descruzou. Ouvia atentamente o som relaxante da cascata erguida na parede lateral. A água escorria pelas engenhocas e o barulho suave se juntava à música ambiente trazendo eco de cristais deslizando mansamente.

Quando deu por si, a sala estava toda ocupada, e a sessão começou. Um incenso fumegava perto da instrutora, os movimentos orientados feitos em muita sintonia, gestos leves. Clarice nem pensava, era um enlevo tamanho que não cabia raciocínio, tudo ficava distante, anuviado até mesmo pela falta dos óculos. Em seguida, em exercícios ainda mais relaxantes, era necessário deitar sobre o colchãozinho. E foi a melhor sensação do mundo! Despreocupada, completamente conectada ao nada, nem conseguia abrir os olhos. E dormiu. Profundamente.

A aula já havia terminado e a simpática secretária tentava, a todo custo, acordar Clarice. Um tremendo constrangimento e ainda ouviu que o acontecido era comum, aquilo apenas mostrava o esgotamento físico e mental. Toda sem jeito, ela se recompôs e, entre incrédula e atrapalhada, seguiu o rumo de casa. 

Na quarta-feira, menos empolgada, voltou. Ajeitou-se num colchonete mais ao meio da sala, longe daquele barulhinho anestesiante da cascata. Esforçou-se para acompanhar a turma, mostrou-se ligada a tudo. Mas quando chegou o momento de deitar, afligiu-se. Não havia como driblar aquela languidez que escorria pelo corpo. Sem comando, era um entorpecimento assustador. E, inevitavelmente, adormeceu. Absolutamente.

Acordou sozinha, ainda no finalzinho da aula. Assustada, trêmula. Ao erguer a cabeça, percebeu que havia babado no colchonete. Um fio de saliva ainda escorria do canto da boca. Num gesto rápido, tentou estancar o líquido. Descabelada, desorientada, sentou-se rapidamente. Espiou de lado, todos seguiam a orientadora. Notava olhadelas de revés transmitindo sorrisos de “tudo bem”.  Mas Clarice não atinava. Nem sabe como chegou ao final da atividade.

Na sexta-feira, nem saiu da cama. Acordada, com a cabeça coberta, sentia uma vontade danada de não fazer nada, absolutamente nada. E foi isso que fez em todas as manhãs daquele período de férias. Nada.

Só ficava contrariada quando via a camiseta e a calça dentro da embalagem, sem uso.  Na verdade, o que irritava mesmo era o tinir dos níqueis a ressoar nos miolos…  

Tema: Humor

19 comentários em “A arte de dominar a meditação │ Regina Ruth Rincon Caires”

  1. Olá, Bela Adormecida!

    Eu gostei do seu conto. Acredito que o tema também tenha ajudado, pois é fácil abordar o humor, principalmente se exagerarmos as reações dos personagens, o difícil é deixar o texto engraçado. Você conseguiu cumprir com o desafio e a história está muito boa de ler, não ficou apelativa e não precisou de nada exagerado para deixar o conto com um tom humorístico, o que demonstra domínio do autor. A escrita é simples, inteligente e fluída. Não observei desvios gramaticais que pudessem atrapalhar a minha leitura. Gostei bastante.

    Sucesso pra ti!

    Boa sorte!

  2. O texto flui bem, não há muitos adornos, é uma escrita direta em uma narrativa ágil, entretanto, tenho críticas. Primeiro, o formato: não acho que é um conto, parece uma crônica. Não encontrei um conflito verdadeiro e a narrativa segue, muito bem, um relato cotidiano bem-humorado. Minha outra crítica se refere ao tema, eu acredito que esse é um daqueles casos em que a amplitude prejudica, pois periga o texto não conseguir atender. Foi o que senti aqui. Eu não entendi se o texto se pretende bem-humorado ou engraçado, ou se é sobre estar de bom-humor em um momento descansado… enfim, é uma boa crônica sobre o descanso no cotidiano em um desafio de contos temáticos

  3. Anna Carolina Gomes Toledo

    Gostei mais do conto sem ver o tema. É um humor gostoso e mais modesto, sem apelar pro tosco ou absurdo que causa risadas com mais facilidade… Entretanto, sendo ele o tema, sinto que ir para o caminho incomum exigia uma resultado mais expressivo do que foi. Seria um texto maravilhoso em outros temas.
    A descrição é agradável e, mesmo sem muitos detalhes, as cenas são muito imagináveis e me remetem a uma charge. Adoraria ver essa história desenhada. Boa sorte no desafio.

  4. Olá, Bela! “Há dias pensava numa atividade prazerosa para aqueles dias” é uma frase que dura 2 dias 🙂 Atenção tb para tempos verbais diferentes no mesmo conto (passado e presente). Não acho que “humor” seja um tema. De todo modo, a situação é cômica. Só acho que poderia ser mais inusitada, para reforçar o efeito humorístico (tanto que o próprio narrador diz que aquela situação era corriqueira). Achei tb q ficou sem muito final.

  5. jowilton amaral da costa

    O conto narra de forma bem divertida a história de uma mulher que decide praticar ioga nas suas férias. O enredo é muito bem construído, e nos leva de forma divertida pelo dia a dia da protagonista. A narrativa também é muito boa, ágil e segura, dando ritmo a trama. O tema foi executado a contento. Boa sorte no desafio.

  6. Olá, Bela adormecida! Tudo bem?
    Que conto gostoso de ler! Achei bem humorado, bem escrito, maduro. Com certeza de alguém muito seguro na escrita e que não quer, nem precisa, fazer coisas mirabolantes para tentar ficar bem colocado no desafio. Gostei muito da simplicidade e honestidade do conto. Poderia, e quem sabe não é mesmo, ser uma crônica. Parabéns!
    Boa sorte no desafio e até mais!

  7. Fernando Dias Cyrino

    Olá, Bela Adormecida, você me apresenta a Clarice buscando a yoga para, por que não, acalmá-la naquelas primeiras férias sem viajar e no afã de dominar a nova técnica de meditação, acabou engolida por ela. Puxa, gostei da sua história. Você alcançou o que pretendia (e que só reparei no final da leitura) fazer me rir. Conseguiu. Não gargalhadas mas sorrisos gostosos de quem curtiu a trajetória da nossa amiga Clarice na academia de yoga. Olha, você escreve bem, só notei uma questão em joanetes que acho que seja masculino. No mais, parabéns pelo seu domínio do idioma. Uma bela história. Parabéns e sucesso.

  8. Olá Bela. O seu conto lembrou-me de que tenho de ir para o ginásio, ou academia como vocês chamam no Brasil. É de uma simplicidade quase desesperante, especialmente para o tema em questão: Humor. Esperava algo mais fora da caixa. Felizmente que o grande Bruno decidiu colocar o tema apenas no final, caso contrário o impacto / desilusão seria ainda maior. O que não significa que seja um mau conto, muito pelo contrário. Tem ritmo, ironia, linguagem correcta. Só não me fez rir.

    PS: Dei mais meio ponto pela ironia suprema do título “a arte de dominar a meditação”.

  9. Ana Luísa M. Teixeira

    Oi Bela!
    Tudo bem?

    Acho tão difícil escrever cenas de humor, mas você conseguiu muito bem passar por esse desafio!
    Como já foi dito em alguns dos comentários, o humor não precisa, de maneira alguma ser escrachado a ponto de termos de chorar de rir ao ler. O modo como você desenvolveu o enredo foi sutil e inteligente, coisa que eu acho muito difícil, fazer humor normalmente é muito fácil tender para um extremo.
    Está bem escrito, bem estruturado e não há grandes erros de revisão ou digitação.

    Parabéns pelo texto e boa sorte!

  10. Buenas, Bela Adormecida

    O humor exige uma mente afiada e mãos hábeis. Ou boca hábil, ou gestos hábeis. Tanto faz.

    Aqui, temos um humor leve e sutil, cotidiano, que exige que o leitor se identifique com a personagem pra funcionar 100%. Neste caso, as mães de plantão, que conseguem se imaginar na situação, apreciarão mais e perceberão certas nuances que os homens, em geral, deixarão escapar. Muita gente não gosta quando comento que existe públicos diferentes para o humor, mas acho que isso se encaixa na maioria das áreas da vida.

    O conto está bem escrito, é despretensioso e cumpre bem sua proposta.

    Parabéns pelo texto e participação! Vamos que vamos.

  11. Olá,
    O texto é uma leitura leve e bem humorada. Pra mim é humor sim, não precisa ser escrachado demais para ser humor. Pode ser algo sutil também. A escrita é muito boa e envolvente. O enredo também é muito verossimil. Só é um pouco previsível a parte do dinheiro, que já demonstra desde o começo qual seria a “punchline”
    Boa sorte!

  12. Oi, Bela Adormecida,

    Para mim, humor é o tema mais difícil de se trabalhar.

    Aproveitamento do tema:
    Achei razoável, há humor sim, sutil, brincando com a situação vexaminosa.

    Enredo:
    O humor é mesmo um olhar diferente para essas questões do cotidiano. Parece uma história simples, mas a gente fica nas férias na ansiedade de saber o que fazer nas férias kkkk Gostei do enredo.

    Escrita:
    Acompanha o ritmo do conto. Percebe-se acelerada no começo, relaxante no meio e frustrada no fim rsrsrs. Está bem escrito.

    Impacto:
    No geral, eu acho que poderia ter tido mais graça. Não para gargalhar, mas rir. Contudo, é conto divertido. Tem toque de humor e funciona na proposta.

    Boa sorte e parabéns!

  13. antonio stegues batista

    Clarice tirou férias para apenas descansar, não vai viajar,
    pensa numa atividade calma e prazerosa para passar o tempo e opta pela ioga.
    A descrição dos detalhes do ambiente da academia de ginástica são realmente,
    estimulantes ao relaxamento dos sentidos e consequentemente, ao sono.
    Por incrível que parece, somos sugestionados a isso.
    Clarice, como muitos trabalhadores, quando saem de férias, não sabe o que fazer e isso é preocupante.
    Fazer rir é uma arte bem difícil, mas vc conseguiu criar uma narrativa com uma pitada de bom humor. Gostei.

  14. Regina Ruth Rincon Caires

    Depois da pausa exigida pelo término da leitura do texto sobre Alzheimer, li o conto de humor. E foi bom. Um texto leve, despretensioso, daqueles que mostram um relato, feito num bate-papo informal, de uma peripécia inglória. Gostei da preocupação constante da personagem com os gastos empenhados. O tilintar dos níqueis povoava as ideias de Clarice, e acho que eu também ouvi…

    Nem sempre texto de humor gera riso, gargalhada. Pode ser leve, sutil, mais discreto, narrar uma cilada, contar um fato que, na verdade, foi “muito melhor esperar por ele”. O humor geralmente apresenta crítica com uma pitada de ironia, sarcasmo, deboche, conta alguma coisa “que saiu pela culatra” e que distrai o leitor. Agora, se não distrair, aí não tem jeito.

    Os deslizes:
    ‘Há dias pensava numa atividade prazerosa para aqueles dias’ – poderia ter colocado “para aquele período”, poxa!

    E o danado “do” joanete!!! Será que foi erro de digitação? Queria que fosse, mas acho que não foi. Acredito que este erro persegue o autor feito o meu “eXpontâneo” (história antiga). Da próxima vez, passa o rascunho pra Claudinha! Você viu que até ela quase dormiu e “babou” durante a leitura?! O negócio é sério!

    Brincadeira, Bela Adormecida, eu gostei do texto!

    Boa sorte no desafio!

    Abração…

  15. Oi Bela Adormecida.

    Ah, que pena que Clarice não insistiu na ioga. Parece que era exatamente o que ela precisava.

    Um conto leve, bem escrito, palavras precisas. Porém, senti falta de algo mais.
    Quanto ao tema, trata-se de uma narrativa bem humorada, mas não sei se chegou lá, se é mesmo um texto de humor.

    Boa sorte!

    Kelly

  16. O pseudônimo poderia ser o título do conto !
    Esse conto tem um ar de pequena história. Tudo bem se foi essa a intenção, mas senti falta de algo que me deslocasse enquanto leitor.
    Não consegui perceber humor, mas pode ser efeito da minha leitura mal-humorada.
    Penso que algumas passagens poderiam ser mais enxutas, há algumas repetições de ideias e palavras:
    ‘Há dias pensava numa atividade prazerosa para aqueles dias’. Existe aqui uma repetição da palavra ‘dias’, que soa ruim na leitura.
    ‘Pensou na academia […] só de pensar’.
    Valeu a leitura !

  17. Claudia Roberta Angst

    Olá, Bela adormecida, tudo bem? Vai acordar quando?

    Fiquei surpresa ao descobrir que o tema proposto era humor. Tudo bem, o conto é bem humorado, leve, mas eu mesma já estava começando a relaxar demais e quase dormir (e babar, claro). O que me pareceu foi um relato constrangedor, do que pode realmente ter acontecido com alguém, mas ficou faltando uma pitada a mais de comédia. No entanto, considero que o tema foi abordado com certo sucesso.
    Texto bem escrito, com poucos lapsos que escaparam à revisão:
    […] tamborilando os dedos na direção do carro > o emprego de “direção” ao invés de “volante” me confundiu por um momento – imaginei a moça tamborilando os dedos indo em direção do carro.
    […] mas a joanete a mataria > Joanete = Classe gramatical: substantivo masculino > o joanete
    Parabéns pela participação no desafio e boa sorte.

  18. Texto muito bem escrito, só não sei se tão bem humorado quanto deveria. Talvez, mesmo, o mal-humor seja mais meu do que do texto. É que o tema é humor e o humor do texto não é muito escrachado, ao contrário, é um tanto sutil, refinado, a começar pelo título, que brinca com a ideia da protagonista ter dificuldade em dominar a meditação, vencendo o relaxamento excessivo, o sono. O desfecho também apresenta um humor sutil, em que o marulhar das águas é substituído pelo tinir maroto dos níqueis. Taí, gostei do texto.

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